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Um bom casamento entre empresas e startups na agenda ESG

  • Foto do escritor: FLAVIO ARRUDA
    FLAVIO ARRUDA
  • 9 de out. de 2023
  • 4 min de leitura


Em agosto de 2019, 181 grandes CEOs reunidos na Business Roundtable, associação das maiores corporações dos Estados Unidos, assinaram o manifesto que afirmou ao mundo que a supremacia dos acionistas nas empresas estava chegando ao fim para ceder espaço a um modo de gestão capaz de valorizar todos os demais stakeholders do negócio: consumidores, funcionários, fornecedores e comunidades. Quatro anos depois, me pergunto se, naquela reunião, as lideranças imaginariam o que vemos hoje: 99% dos investidores utilizando divulgações ESG das empresas como parte das decisões de investimento, segundo levantamento global da empresa de consultoria e auditoria EY, Global Reporting and Institutional Investor Survey; e os aportes em práticas ESG batendo os US$ 53 trilhões até 2025, de acordo com as previsões da ESG Radar 2023, da multinacional de tecnologia da informação Infosys.


Com estes indicadores à mesa e no exercício de colocar os avanços da agenda ESG numa perspectiva de linha do tempo, acredito que hoje alcançamos um ponto de inflexão: o cenário está posto e não tem mais volta, é verdade; o “normal “, o esperado e exigido dos negócios agora é aliar lucro a critérios mais sustentáveis de aplicação. Mas ainda assim há desafios que dificultam esse modelo de operação, que congrega rentabilidade e impacto socioambiental positivo. Portanto, precisamos repensar e criar novas condutas.


Um destes descompassos é, certamente, o tempo. As empresas seguem sob a pressão de ganhos de curto prazo por parte de investidores, enquanto que a agenda ESG é, como se sabe, investimento a longo prazo.


Outro desafio são os indicadores. Como definir e mensurar evidências comparáveis do impacto gerado, em termos socioambientais e de lucro, e fugir do chamado greenwashing, que é um verdadeiro tiro no pé?


Acredito que é na busca por sanar descompassos como estes que muitas organizações procuram hoje percorrer uma jornada de inovação aberta, e estabelecer pontes com startups, muitas vezes em intercâmbios internacionais, para o desenvolvimento de projetos ou negócios de impacto com mais agilidade. Ou seja, a agenda ESG vem impulsionando uma malha de potenciais parceiros na cadeia de valor - startups e empreendedores - para os quais inovar, por questões de sobrevivência e viabilidade da proposta de valor, precisa ocorrer de forma mais rápida do que no ecossistema interno da empresa.


Na Ziel, acompanhamos e vivenciamos de perto este cenário. Tanto como facilitadores de pontes quanto como gestores de projetos de impacto que nascem a partir delas. É por isso que digo que, um terceiro descompasso, talvez menos aparente, mas não menos importante, é o alinhamento cultural entre empresa e startup na inovação aberta, para que haja um “bom casamento”, principalmente quando falamos de alianças internacionais. Cuidar deste entrosamento é fundamental porque assegura o amadurecimento e transformação dos dois lados, empresa e startup, e o sucesso do projeto ou negócio de impacto positivo em todas as suas etapas, envolvendo, inclusive, a identificação e mensuração de indicadores socioambientais e de lucro, tão relevantes para o mercado na agenda ESG.


É com base nesta experiência, que listo algumas recomendações abaixo, trabalhadas em nossos programas de consultoria e mentoria para negócios e startups, em intercâmbios internacionais ou mesmo interestaduais:

  • O objetivo da startup não deve ser a internacionalização a qualquer custo. Não faz sentido empurrá-la para um outro mercado, com outra cultura e mais distante do seu ambiente natural se não existe claramente a identificação prévia de um problema neste mercado que possa ser efetivamente sanado pela startup;

  • Não basta resolver o problema no novo mercado. A startup precisa mostrar evidências de que oferece a melhor solução de impacto, comparada a quaisquer outras existentes no seu mercado ou no mercado da empresa parceira;

  • O “namoro” precisa evoluir para casamento. Não basta apresentar duas partes que desejam trabalhar juntas para o desenvolvimento ágil e eficiente de uma nova solução de impacto. Há um “choque” de culturas que precisa de um alinhamento amigável em prol de um objetivo que deve ser comum. Startup é “pé no acelerador”; empresa é governança, possui muitos agentes de decisão. Um gestor de projetos capaz de enxergar e mediar essas diferenças é essencial;

  • A relevância do projeto de inovação aberta nem sempre está nas metas de quem fica na linha de frente do projeto na empresa. Isso faz com que a sua priorização seja desafiadora. Assim, é imprescindível haver um canal de comunicação, um “elo” para ajudar neste alinhamento;

  • É fundamental ter uma agenda clara de etapas, para identificar a hora de desenvolver uma “prova de conceito”, quanto tempo deve durar, o que vem depois e se e em qual momento a startup deve tomar a decisão a favor da internacionalização;

  • Na internacionalização, a startup precisa de suporte para definir qual o melhor modelo. Existem por exemplo, programas de incentivo que só aceitam candidaturas de empresas estabelecidas localmente ou associadas a consórcios com corporações locais;

  • A construção de indicadores conjuntos é essencial.


Gosto muito de dizer também que, com este entrosamento, muitas vezes o que se vê é que o projeto de impacto socioambiental não necessariamente requer uma solução disruptiva, um novo produto ou tecnologia. Há casos em que o pulo do gato está em inovações e melhorias em processos ou ações que a empresa já desenvolve. Coisas que só um bom casamento revela.


 
 
 

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